Desvendando o mistério da consciência com Antônio Damásio

Finalizei mais um livro, desta vez deste que considero um dos maiores gênios vivos e com o maior conhecimento sobre nosso cérebro. Seu conhecimento se deu de uma forma mais concreta quando ele passou a incluir em seus estudos problemas mentais como metodologia científica para descobrir a relação entre as doenças e as partes atingidas no cérebro. Com isto o Damásio criou um mapa bem apurado das nossas funções cerebrais. Ele aborda, por exemplo, a relação de uma área atingida no cérebro com o nível de perda de consciência da área comprometida.

O que isto quer dizer? Com isto podemos verificar por exemplo que epilepsias são consequência da área do cérebro primordial atingida, que faz com que estados de vigília e controle das funções do corpo fiquem comprometidas. Já outros distúrbios da consciência que muitas vezes passam imperceptíveis por serem internas e psicológicas, faz parte de uma área do cérebro classificada por ele como Consciência ampliada, sendo assim um comprometimento desta área não compromete a vigília e nossa atenção com o mundo, como acontece nas lesões do consciência primitiva. Ele também reforça a idéia do self, muito falada por Jung, mas no ponto de vista dele há um embasamento biológico e neurológico, campo que não era especialidade do Jung. Com isto ele completa diversas peças do quebra cabeça da psique.

Para chegar neste livro, primeiramente cheguei em O Erro de Descartes, que além de outros assuntos pertinentes sobre a consciência, mostra um exemplo prático de como a consciência funciona na prática e o quanto a emoção e sentimentos afetam o desenrolar do nosso cérebro.

Com exemplos práticos e casos curiosos, o Damásio pôde explorar aspectos neurológicos e psicológicos de forma muito eficiente, pois pelas lesões apresentadas ele conseguiu relacionar diferentes áreas do cérebro. O famoso caso de Phineas Gage, um dos casos mais incríveis na história da neurologia, em que o Damásio é fascinado e fez questão de falar bastante deste caso no livro, é uma prova de que certas áreas do cérebro age sobre nossas emoções e o quanto uma parte atingida pode afetar nosso comportamento, mostrando que sim o comportamento faz parte do cérebro e das nossas funções cerebrais, e justamente neste ponto que temos o erro de Descartes: a dualidade mente x corpo é um erro.

Phineas Gage teve seu cérebro seriamente atingido por uma barra de ferro após uma explosão em uma mina. Mesmo com a seriedade da lesão e todas inflamações que devastaram seu crânio e massa cerebral durante anos, ele permaneceu consciente, mas com mudanças de comportamento curiosas.

O caso deste homem mudou a forma de pensar sobre o cérebro e reforçou as teorias do Damásio sobre a evolução do cérebro do ponto de vista da evolução do ser humano, e introduziu conceitos do protoself, consciência central e consciência ampliada. Justamente a barra de ferro de 6kg, que o Phinea carregou durante toda sua vida, mostra que o impacto na sua consciência ampliada corresponde as emoções e a parte mais avançada que rege nossos comportamentos e como isto afetou o comportamento e moral do Phinea, enquanto que outras faculdades mentais permaneceram intactas.

Até então os cientistas não sabiam os limites do cérebro e as questões misteriosas que conferem nossas especialidades como humanos e atributos abstratos da nossa consciência. Pela primeira vez na história uma lesão cerebral afetou exclusivamente o comportamento de alguém de forma sistemática. A mente e questões de moral e comportamento em sociedade faz parte das atribuições cerebrais e foi justamente a parte atingida por Phinea, e corresponde também a proposta do funcionamento do cérebro proposta por Damásio.

Sendo assim, a consciência evoluiu de forma sistemática na evolução até atingir uma consciência ampliada. O livro é bastante detalhado e com vários casos e estudos de doenças que revelam como esta dinâmica funciona. O Erro de Descartes, apesar do nome, foca no caso Phinea para explicar a relação do cérebro com a razão, o berço da emoção, e o livro Mistério da Consciência que apresentei aqui relata detalhadamente a evolução destes diferentes elementos no cérebro e como suas funções se relacionam com o restante do corpo, bem como um acompanhamento evolutivo do surgimento de cada um de forma biológica, mas também com um viés da psicologia, e as questões inerentes ao self, termo curioso que não existe tradução direta e completa em línguas latinas, que tenta definir a unidade do ser humano, o eu-central e provavelmente uma das chaves para entender o despertar da consciência.

Citizen Scientist and Software Engineer, looking for the limits beyond mind and machine exploring the world

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